Entrevista: Christiano Bonete – Daemon – RS

Hoje trazemos para vocês uma entrevista com o Christiano Bonete, Ppoprietário da marca Daemon Brew de Porto Alegre.

Bonete, como é mais conhecido no meio dos líquidos enebriantes, tem uma produção terceirizada de hidromel na fábrica do dono do bar onde ele trabalha e ali encontrou espaço para dar asas a sua criatividade como produtor de hidroméis e conseguiu colocar em uma da torneiras da casa um líquido diferente entre as famosas cervejas artesanais ali servidas. Mas até chegar a esse momento na vida muita coisa já aconteceu na vida do nosso amigo Bonete: em um passado inglório – período onde nada de etílico produzia – buscava um novo hobby, mas não queria fazer cerveja para “não ser mais um no meio de tantos cervejeiros”. E foi depois de muito pensar, que uma luz acendeu-se: “Me lembrei de quando jogava RPG e lá tinha o famoso hidromel, sem falar nas referências mitológicas” e pronto, lá estava um caminho traçado para nosso nobre gaúcho. E assim colocou-se na missão de produzir o primeiro hidromel, sem rumo mesmo pois ainda, lembra ele, “o primeiro hidromel que provei de fato foi a minha primeira experiência” e já encantado com o que criara teve a chance de comparar pouco tempo depois com outros néctares por aí, e viu que a flecha não errara o alvo.

É muito fá de hidroméis bouchet – que tem parte do mel, ou todo ele, caramelizado – e também de braggots – levam malte – pois “vê um grande potencial” neles, mas, independente do que sai de seus fermentadores para ele “bouchet acima de tudo” e não coincidência, seu hidromel “caseiro” preferido é o “The Mighty Mo”, produzido por este que vos escreve este texto e pode ser comprado aqui. Agora, isso não é exclusividade, tanto que Bonete nos conta que “comercialmente já lancei melomel e metheglyn, tenho projetos de outros estilos”. Então a preferência aqui não é um limitador e os hidroméis comerciais que mais abalaram nosso nobre colega são os hidromeis Jinja Dragon Polen Nation da Crafeted Meadery, que reforçam a ideia de que a cabeça está aberta para novas possibilidades. Inclusive por, no ponto de vista dele, achar que os hidroméis americanos “tem outra pegada, hidroméis mais leves, fáceis de beber, com combinações inusitadas” e que graças a este conjunto de características “aproxima as pessoas da bebida”.

Hoje, vendendo seus hidroméis de forma profissional, ele apoia a venda de produtos devidamente registrados, apesar de lá no comecinho da coisa toda ter vendido uma garrafa ou outra ainda sem as formalidades necessárias. Mas foi baseado no reconhecimento obtido pelos seus hidroméis que enveredou-se para o campo profissional. Não foi fácil, todavia, definir como iniciar a produção profissional já que foi “procurando onde produzir, quais tipos de hidromel, em que formatos e volume. Definidos estes parâmetros iniciais houve o primeiro lote e um mundo completamente novo se mostrou”. Mas nosso nobre gaúcho não se deixa intimidar e diz que continuará evoluindo: “continuarei eternamente aprendendo e aperfeiçoando as técnicas”.

Como sua produção ainda é pequena, procura ter contato com todos os seus clientes para que tenha sempre informações sobre a aceitação dos seus produtos e assim, de informação em informação e aperfeiçoamento em aperfeiçoamento se prepara para lançar seus hidroméis em latas para o mercado. Acredita também que o hidromel além do tradicional tem muito terreno para explorar “quem conhece, conhece apenas o tradicional” e acha que tem muito público para ser descoberto. Espera assim, manter uma linha estável de produtos e “eventualmente lançar algum rótulo sazonal ou lote único”. E não descarta a cerveja, apesar de achar que não avançará para além de um braggot.

Trabalhando em um local com público predominantemente cervejeiro, acredita que tem um público mais aberto que outros locais para provar o hidromel, mas muitos ainda apresentam resistência e vê “um trabalho hercúleo a ser feito” o de apresentar o hidromel para o grande público.

Sobre o mercado para os próximos anos Bonete aposta: “prevejo um crescimento estrondoso para os próximos anos”, mesmo acreditando que “no RS me parece que o público é ligeiramente avesso a novidades ou algo diferente que não entendem, mas após um tempo cedem e aproveitam” e completa sua previsão para o futuro dizendo que acha que “haverá espaço para todos, se souberem desenvolver seu trabalho”.

Voltando aos caseiros, o Bonete, que é ganhador de três medalhas em Sul Brasileiros das AcervAs e também de uma medalha na Copa Kylix de hidromel, acredita que “estudo e mais estudo, é a chave para se fazer um bom hidromel” e diz também que medalha não é o mais importante para ele mas sim “ser do agrado das pessoas” e arremata dizendo que no fundo “um hidromel campeão sempre será aquele que traz prazer ao beber”. Inspiradores palavras meu nobre gaúcho.

E antes de passar para a entrevista em si, a Pompéia Hidroméis agradece pelo tempo despendido e por passar parte da sua experiência para os leitores.

Segue a entrevista na íntegra.

1 – Nos conte um pouco sobre como o hidromel chegou em sua vida e o que ele significa para você hoje em dia?

Começou com a necessidade de um novo hobby. Queria algo que fosse prazeroso de fazer mas também houvesse um “retorno”. Estava na moda todo mundo fazer cerveja e pareceu um boa ideia, mas eu não queria ser mais um no meio de tantos cervejeiros. Procurando um pouco mais, me lembrei de quando jogava RPG, lá tinha o famosos hidromel, sem falar nas referências mitológicas que também continham estas referências. Assim comecei a pesquisar e comecei a fazer essa bebida que quase ninguém conhecia na época. Hoje o hidromel é para mim mais que um hobby ou futura profissão, é um meio agregador de amigos, conhecimento e experiências, tendo tanto uma infinidade de combinações entre ingredientes como fatores aglutinantes de pessoas e experiências.

2 – Qual foi o primeiro hidromel que provou? Nos conte sobre ele.

O primeiro hidromel que provei de fato foi a minha primeira experiência. Não tinha parâmetros, nada com o que comparar. Achei maravilhoso, mas sabia que ainda estava longe de ser o início de algo bom. Logo procurei e encontrei um “comercial” em um bar. Aina longe do que eu imaginava que seria um bom hidromel, mas já me mostrava que eu estava no caminho certo, poia na comparação achei o meu mais interessante.

3 – Quando e como o foi (ou está sendo) a transição do hidromel caseiro para o profissional? Tendo terceirizado a produção, nos conte um pouco sobre essa experiência.

A transição começou a muito tempo atrás quando comecei a vender parte de minha produção caseira (não façam isso, registrem tudo bonitinho), com o tempo comecei a ser levemente reconhecido pelo produto diferente e de qualidade. Naturalmente a profissionalização foi acontecendo, procurando onde produzir, quais tipos, em que formato e volume. Definidos estes “parâmetros” iniciais, houve o primeiro lote e um mundo completamente diferente se mostrou, pois, mesmo tendo estudado e planejado, o aumento do volume de produção trás novas perspectivas e técnicas para a produção. Continuarei eternamente aprendendo e aperfeiçoando as técnicas para manter um padrão de qualidade que é exigência minha.

4 – Como você está inserindo este produto no mercado e qual a percepção que o público tem tido sobre o produto apresentado?

Comecei pequeno e tentando ter o máximo de controle na venda para coletar dados sobre a aceitação do público. Vendo apenas no bar onde trabalho, que pertence aos donos da fábrica onde produzo, pois foi a forma de acompanhar o volume de saide e ter o feedback imediato dos consumidores. Em breve farei o envase em latas para começar a distribuir em outros locais. O público ainda desconhece ou nunca provou hidromel em sua grande maioria. Quem conhece, conhece apenas o tradicional (água e mel) e muitas vezes estranha outras variações com adição de outros ingredientes. Ainda já muito a se falar sobre hidromel para o público e vejo que pelo menos já estão curiosos e experimentando, ainda que com baixo consumo por ora.

5 – Você também produz cervejas, acha que isso afeta a maneira como produz hidromel?

Certamente. Minha visão do processo, forma de trabalhar os insumos e mesmo a criação de receitas foi e ainda é influenciada não só pela cerveja, mas diversas outras bebidas. A constante busca por aperfeiçoamento faz com que se use conhecimentos de outras bebidas e até mesmo outras áreas (culinária, por exemplo) para expandir o leque de possibilidades de criação.

6 – Tendo um público predominantemente cervejeiro com acesso imediato para seus produtos comerciais, acha que a percepção deles sobre o hidromel é diferente da do público amplo?

Sem dúvida. Aqui atendemos 2 tipos de cervejeiros: o conhecedor e o casual. O Conhecedor está mais aberto a experimentar outras bebidas e compreende as diferenças básicas. O casual ainda é arredio a provar o que não conhece e geralmente acaba provando meio por indução de amigos ou porque vê alguém bebendo. Percebo que o público amplo ainda não tem referências ou provou algum hidromel, mesmo ultimamente tendo tido muitas referências a bebida na cultura POP. É um trabalho hercúleo a ser feito ainda.

7 – Quais os estilos de hidromel mais gosta de produzir? Por quê? Há um favorito sobre os demais?

Particularmente gosto muito de bouchets (apesar de não ser um estilo propriamente dito), a gama de possibilidades e níveis de complexidade que podemos encontrar me fascina.  Em geral fiz muito melomeis e metheglyns pois as combinações são mais próximas do que já estamos acostumados em forma de chás e sucos. Descobri no braggot um grande potencial, mas ainda não encontrei a fórmula perfeita de execução. Resumindo, bouchet acima de tudo, mas sempre depende da proposta.

8 – Quais os estilos de hidromel que você já lançou comercialmente?

Comercialmente já lancei melomel e metheglyn, e tenho projeto de outros estilos mais ainda em fase de planejamento.

9 – Como você prevê o crescimento do hidromel comercial no Brasil para os próximos anos, no RS e no país?

O crescimento se dará da mesma forma que com a cerveja artesanal, claro que dentro das peculiaridades do hidromel. No RS me parece que o público é ligeiramente avesso a novidades, mas após um tempo cedem e aproveitam. No Brasil já existem muitas empresas vendendo regularmente seus hidroméis (mesmo com as restrições legais em relação a estilos e insumos permitidos) e abrindo mercado e portas para outros e novos fabricantes. A concorrência irá existir mas creio que de forma sadia, visto que na maioria dos casos os produtores eram caseiros no passado e se conheciam de alguma forma. Vejo um crescimento estrondoso nos próximos anos, porém espero que não aconteça a bolha que aconteceu/acontece/ com o universo da cerveja artesanal, há espeço para todos se souberem desenvolver o seu trabalho.

10 – Qual é o hidromel inesquecível que você já provou? É comercial ou caseiro?

Tem comercial e tem caseiro. O caseiro é o The Mighty Mo do nobre Luis, não tem como não amar esse hidromel, que é rico em aromas e sabores e traz sensações incríveis quando degustamos. Os comerciais, 2 na verdade, ambos da Crafted Meadery, um hidromelaria note americana foram eles o Jinja Dragon e o  Polen Nation. Se tornaram inesquecíveis pois me mostraram um rumo que eu não vislumbrava para o hidromel comercial. 

11 – Você já andou provando diversos hidroméis estrangeiros (nomeadamente americanos, o que acha deles em comparação com o que está sendo feito no país em termos de comercial?

São mundos distintos pelo que vejo. O mercado nacional ainda tem muito a cara do meio caseiro, com a potência e estilos apresentados baseando-se em um modelo construído ao londo do tempo pelos caseiros (o qual me incluo, visto que ainda faço hidromel caseiro e seguem esta linha). O mercado americano tem outra pegada, hidroméis mais leves, fáceis de beber, com combinações inusitadas (para mim pelo menos) de ingredientes, enfim, toda uma visão diferente da bebida que aproxima as pessoas da bebida e abre a oportunidade para que elas experimentem outras versões.

12 – Seus hidroméis já ganharam diversos prêmios em concurso nacionais. O que é necessário para produzir um hidromel campeão, aliás o que é para você um hidromel campeão?

Estudo e mais estudo. Essa é a chave para se fazer um bom hidromel. Se ele será campeão de algum concurso é secundário para mim, o importante é ele estar bem executado e ser do agrado das pessoas. Um hidromel campeão sempre será aquele que traz prazer ao beber, proporcionando uma aventura para os sentidos. Pontos e medalhas são bônus que surgem nos concursos, envio minhas crianças para os concursos para receber um feedback mais técnico do que o público comum poderia dar. Mas um hidromel campeão de verdade é aquele que um desconhecido toma, os olhos brilham e ele se sente feliz com a experiência.

13 – Qualquer pessoa pode aprimorar a produção do seu hidromel?

Claro, basta ter interesse e estar aberto a aprender e ouvir quem tiver algo a ensinar. Cada um é livro para decidir que técnicas e como vai fabricar sua bebida, mas não vejo por que não utilizar técnicas que podem tornar sua bebida melhor. Uma coisa muito importante é ouvir os mais experientes na produção de hidromel, eles tiveram muito trabalho para aprender o que sabem e em alguns casos tendo que fazer experimentos sem saber os resultados, pois não havia material até bem pouco tempo atrás.

14 – Quais são os seus planos para o seu futuro como hidromeleiro? Há cerveja envolvida?

Meus planos envolvem manter uma linha estável de hidroméis com produtos que os clientes gostem e eventualmente lançar algum rótulo sazonal ou lote único para que outras experiências sejam provadas. Nunca descarto cerveja, mas creio que os braggots sejam o mais próximo que irei chegar em termos comerciais e de linha.

15 – Gostaria de deixar algumas palavras para os nossos leitores.

Estudem, leiam, conversem e ouçam os mais antigos no assunto, pois mesmo que você ache bobagem ou não entenda o por quê do conselho, algum perrengue ele já passou para te dizer o que disse. Provem o máximo de hidroméis e sejam críticos, mas sem menosprezar a bebida dos outros. Sejam humildes em relação a suas produções e conquistas e sempre que fizerem um lote novo, lembre-se: separa a garrafa do Bonete.

 

Um abraço a todos e ótimas fermentações!

Luis Felipe de Moraes – Pompéia Hidroméis. 



Categorias:Entrevistas, Hidromel

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