China e a bebida mais antiga do mundo!

A história das civilizações é algo fantástico, pois nos permite ver que algumas coisas se modificaram radicalmente e outras nem tanto. Algumas atitudes do homem permanecem as mesmas a milênios. Um dos fatos importantes a ser notado e que é comum a quase todas as civilizações é a produção e consumo de bebidas alcoólicas. Seja pelo seu papel social quanto a facilitando a interação entre as pessoas ou mais de cunho religioso, mas sempre esteve presente. Desde que o homem começou a viver em grupos mais ou menos organizados uma das primeiras coisas a se estabelecer foi a produção do seu próprio embriagante local.

Existem várias provas científicas sobre a produção de bebidas alcoólicas de milênios atrás em várias regiões do mundo, entre Egípcios, Romanos, Gregos, Babilônicos e etc. Mas a mais antiga prova confirmada de produção de bebida alcoólica é de uma região da China, mais especificamente no Vale do Rio Amarelo, em Jiahu na província de Henan. Nesta região foram encontrados diversos recipientes de cerâmica que foram identificados como sendo específicos para armazenamento de bebidas. Via datação de Carbono os vasos mais antigos foram datados como sendo de 7000–6600 ac. De 16 diferentes vasos foram coletadas amostras do fundo, por ser considerado a área do mesmo onde mais teria sido adsorvido o líquido que armazenou e foram usadas várias diferentes técnicas de análise. Como resultado descobriu-se que estes vasos foram usados para armazenar uma bebida fermentada feita de uvas selvagens, hawthorn (Crataegus Monogyna) e MEL. As análises até mesmo coincidiam o tipo de bebida armazenada nos diferentes vasos.

Os chineses estavam a 9 mil anos atrás, comprovadamente produzindo, armazenando e consumindo seu álcool para fins sociais e religiosos. Então temos algo que afirmamos no início do texto: algumas coisas nunca mudaram na humanidade e a produção de fermentados é uma das mais importantes.

Uma das coisas que tornaram possível a China ter uma produção (e prova) de fermentados tão remota é o fato de que a 15 mil anos atrás os chineses já produziam artefatos de cerâmica e estes foram extremamente importantes para a fermentação e armazenamento das bebidas. Mais ainda, os poros da cerâmica absorvem o líquido armazenado e vasos duram milênios, esperando para serem verificados por nós no presente. Os vasos encontrados por exemplo eram de um formato perfeito para o armazenamento e para servir bebidas. Tudo muito bem pensado pelos chinês a 9 milênios atrás.

A bebida que foi armazenada nos vasos era, segundo a pesquisa, elaborada de hidromel e combinada com um “vinho” feito de arroz, uvas e hawthorn (espinheira). Nesse caso eles chamaram “vinho” o produto do arroz porque era fermentado para uma graduação alcoólica na faixa de 10%.

As uvas utilizadas pelos chineses em Jiahu eram muito diferentes das que usamos para a produção de vinhos nos dias de hoje. Eles usavam uma uva selvagem (Vitis amurensis) que continha baixa concentração de açúcares simples em sua composição (20%) e existe até hoje. Essa uva é originária do vale de Amur (Rússia/China), mas como todas as outras espécies de uvas da região (aproximadamente 40), nunca foi domesticada. Logo houve uma grande surpresa constatar o uso de uvas para produção de bebidas em Jiahu.

Para a conversão do amido em açúcares simples no arroz o método usado parece ter sido o de mastigar o arroz para que as enzimas da saliva quebrem o amido. Uma técnica que parece ter sido a mais comum no mundo antigo, usada em diversos lugares e até mesmo aqui nas américas onde as mulheres reuniam-se em uma roda e cada uma mascava uma porção do que fosse ser fermentado e colocava em um recipiente comum. Uma enzima presente na saliva quebra a longa cadeia de amido em cadeias de açúcar simples que pode ser processado pelas leveduras e produzir então o álcool. Esse ritual de produção ainda acontece hoje em dia em alguns lugares do mundo como Japão e Taiwan. No final do Neolítico o padrão para a quebra do amido do arroz e do painço passou a ser u uso de fungo o que também melhorou a eficiência de conversão, diminuindo assim a necessidade do uso do mel como fonte de açúcares para a produção de suas bebidas.

E mais coisas aconteceram primeiro em Jiahu do que no restante do mundo: o primeiro instrumento tocável foi ali encontrado, um conjunto de flautas que ainda hoje estão funcionando! Então os chineses já tinham música e bebida em sua remota antiguidade.

E se você acha que esta bebida descoberta não foi algo que durou pouco tempo não! Foram encontradas evidências de produção desta bebida em cerâmicas 5 mil anos mais novas, em Liangchengzhen na província de Shandong.

Que tal tentar recriar uma versão moderna desta ancestral bebida?  E você qual a história da bebida mais antiga que já ouviu falar?

Um abraço a todos e ótimas fermentações.

Luis Felipe de Moraes – Pompeia Hidroméis.

 

Referências:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC539767/#ref13

https://www.penn.museum/sites/biomoleculararchaeology/?page_id=247



Categorias:História

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6 respostas

  1. Cara, seria muito legal tentar recriar uma bebida parecida!!!! O maior problema acho que seria mastigar o arroz ou encontrar o fungo que faz a quebra do amido né kkkkkkk

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  2. Vale lembrar que essa tecnica de mastigar os grãos tambem é usado na chicha, cerveja feita com base de milho aqui daamerica latina pelos povos da cordilheira dos andes.

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  3. Olá, Felipe,
    me interessei muito pelo mundo dos hidroméis e tenho aprendido bastante, seja aqui no site e nos seus vídeos ou em outros lugares na internet por aí. São umas duas semanas lendo um pouquinho por dia e já quero tentar a sorte hahaha Queria só tirar uma dúvida. Pode-se fazer batches menores seguindo as proporções da receitas? Por exemplo, fazer um décimo de uma dada receita que achei legal? Isso seria prejudicial de algumas forma na fermentação etc? Agradeço desde já.

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