Hidromel na terra da Rainha.

Em uma terra tão rica em história como a Inglaterra que já foi morada de diversos povos até se estabelecer o que hoje se chama de povo Inglês, não é de se espantar que já tenha sido bebida por aqueles lados o nosso grande hidromel, não é? E a produção e consumo de hidromel remonta aos tempos pagãos daquela grande e imponente ilha, tendo atravessado a idade média presente inclusive em literatura.

Hidromel aparece em contos tão antigos quanto Beowulf e The Canterbury Tales (Os Contos da Cantuária – tradução livre) e o segundo caso é um dos textos de maior importância para a língua inglesa, pois foi o escrito que ajudou a consolidar o idioma inglês em um formato mais próximo do que ele é hoje e foi escrito por Geofrey Chaucer no século XIV e, ao que se sabe, largamente divulgado tendo versões impressas em 1410 sobrevivido até os dias atuais. Monastérios também mantiveram vivas as tradições e os conhecimentos da produção do hidromel mesmo que apenas como um subproduto da apicultura local (o que quase desapareceu após Henrique VIII ter dissolvido os Monastérios no Séc. XVI). O hidromel também aparece em vários outros pontos importantes do que forma a cultura britânica como a lenda Arturiana, escritos de Shakespeare, Tolkien e J. K. Rowling – além de Chaucer – logo vemos que o hidromel tem seu lugar cativo na consciência coletiva Inglesa e recentemente essa lembrança semi adormecida tem sido trazido a tona pela frequente aparição em séries e filmes além dos livros dos já citados autores, que são sem sombra de dúvidas alguns dos mais importantes do mundo. Mais

Trecho do Conto da Cantuária

recentemente (1603) temos o livro The Closet of the Eminently Learned Sir Kenelme Digbie Kt. Opened” que  foi escrito por um figurão que circulava entre as cozinhas da época anotando receitas de hidromel e outras bebidas em detalhes e levando em consideração o modo de preparo de cada um dos produtores. Neste livro podemos ver hidroméis produzidos exatamente como vemos no filme Hobbin Wood de 2010 nas hábeis mãos do Frei Tuck. O livro contém um grande número de métodos e informações muito curiosas como o método usado para saber que a densidade do mosto estava correta: jogue um ovo no mosto, quanto a parte dele que flutuar para fora do mosto for do tamanho de uma determinada moeda da época o mosto está no ponto. Coisas como esta e completamente impensáveis nos dias atuais, mas que valem pela curiosidade. Você pode acessar o livro aqui.

Geoffrey Chaucer – gravura de 1883

Outro fato interessante é que na Inglaterra à partir do século XVII é comum usar o termo Metheglyn para referir-se a hidromel, pois o mesmo veio importado da cultura Galesa, que foi trazida pelos Tudors para a Inglaterra e os Gauleses preferiam hidromel com especiarias.

A Inglaterra tem vivido um certo interesse em resgatar a sua tradição mais antiga e isso é evidente em movimentos dentro da gastronomia como por exemplo o restaurante Noma do chef René Redzepi, que faz questão do uso de pesquisa e resgate de ingredientes tradicionais e históricos e é um chefe que como vários na atualidade usam hidromel como parte integrante de seus molhos na cozinha. Tom Gosnell que é proprietário da Gosnells London Mead é uma das pessoas que estavam atentos a esse movimento e resolveram dar um toque de modernidade para o hidromel que era ainda produzido na inglaterra, baixando um pouco a graduação alcoólica dos mesmos para deixá-los mais fáceis de beber e assim atingir um maior público. E os parceiros dele não estão para brincadeira, são pessoas com décadas de experiência em produção de vinhos e hidroméis.

Hidromel Inglês.

Mais um fato é que não é somente no Brasil que temos o crescente interesse pelas culturas medievais e grupos de reencenação e estudo estão brotando lá em grande escala. Com eles vem o interesse em comidas e bebidas medievais, mais séries como Game of Thrones para deixar o povo com água na boca para provar o hidromel fazem com que haja hoje na Ingalterra um número crescente de empresas surgindo para abocanhar esse público. E apesar de a Inglaterra ainda ter muito caminho pela frente e não estarem com um mercado tão forte como o norte americano eles estão, em tradição e modernidade, ainda bem a frente de muitos países no mundo em relação ao nosso querido hidromel.

Hidromelarias Inglesas:

https://www.cornishmead.co.uk/

https://www.gosnells.co.uk/

Um abraço a todos e boas fermentações

Luis Felipe de Moraes – Pompeia Hidroméis.

 



Categorias:Hidromel, Países Produtores

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2 respostas

  1. Ótima matéria, Felipe!

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